O resultado do leilão da parceria público-privada (PPP) da Cagepa, na Paraíba, ilustra uma importante mudança de dinâmica no saneamento brasileiro. Após um ciclo marcado por forte competição e expansão acelerada dos operadores privados, o setor passa a conviver com um ambiente mais seletivo, influenciado pelo nível de alavancagem das concessionárias e pela necessidade de execução dos contratos já conquistados.
Em entrevista ao Broadcast, o sócio Saulo Puttini observa que o próximo ciclo do setor deve deslocar o foco dos novos certames para a capacidade de investimento das concessionárias, os pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro e a atuação regulatória diante das novas concessões.
A reportagem abaixo é de autoria de Elisa Calmon.
A vitória da espanhola Acciona no leilão da parceria público-privada (PPP) de esgoto sanitário da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa), nesta sexta-feira, 15, reforçou avaliações de especialistas de que o setor de saneamento entrou em uma fase de maior seletividade, enquanto a temporada de grandes certames caminha para a reta final. A Acciona arrematou, sem concorrentes, o primeiro leilão de saneamento de 2026, ao oferecer desconto de 1% sobre a contraprestação pública máxima prevista em edital. Com isso, emplacou o segundo certame consecutivo do setor, após vencer em dezembro de 2025, em parceria com a BRK Ambiental, a PPP de esgotamento sanitário de Pernambuco. Na ocasião, a espanhola também não enfrentou concorrência no lote conquistado, enquanto o outro bloco foi arrematado pelo fundo Patria Investimentos.
Com a vitória de hoje, a operadora espanhola amplia a atuação em saneamento no Brasil. A Acciona já possui PPPs do setor no Paraná, Espírito Santo e Pernambuco, esse último arrematado em dezembro de 2025, em parceria com a BRK. Em outros setores, a companhia é responsável pela Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo.
Na avaliação do sócio do Levy & Salomão Advogados, Saulo Puttini, a menor competitividade reflete o "fim de ciclo" dos grandes leilões, iniciado após a aprovação do marco legal do saneamento, em 2020. "Nos primeiros leilões, a competição estava lá em cima, com ágios muito elevados. Hoje, o apetite já não é o mesmo para esses projetos residuais, porque as grandes empresas do setor já estão muito expostas e alavancadas", afirmou.
A Aegea, por exemplo, encerrou o primeiro trimestre de 2026 com dívida líquida de R$ 31,55 bilhões, alta de 57,2% em relação a igual intervalo do ano anterior. A alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda dos últimos 12 meses, subiu de 2,83 vezes para 3,89 vezes na mesma base comparativa. A companhia saltou de seis municípios atendidos em 2010 para mais de 890 em 2025, distribuídos em 15 Estados.
Já a Iguá Saneamento, outro nome relevante no setor, tem focado esforços em duas de suas principais operações: Rio de Janeiro e Sergipe. A empresa fechou 2025 com passivo de R$ 12 bilhões, acima dos R$ 11,6 bilhões do terceiro trimestre. A alavancagem, medida por dívida líquida sobre Ebitda, estava em 10,4 vezes ante 11,08 vezes no trimestre imediatamente anterior.
Diante desse cenário, a falta de concorrência pela PPP da Paraíba também já era esperada pelo sócio fundador do escritório Vernalha Pereira, Fernando Vernalha. "O resultado do leilão reflete esse novo momento do setor. O mercado vai se tornando naturalmente mais seletivo à medida que a capacidade dos operadores do setor vai sendo absorvida com a adjudicação de grandes contratos de concessão e PPP", comentou.
Olhando para frente
Apesar da seletividade maior, o setor ainda espera que alguns projetos venham a mercado. Entre eles estão a PPP de esgoto do Ceará, já marcada para junho, além do projeto de Rondônia, que pode ser leiloado ainda neste ano. No radar também está a PPP da Saneamento de Goiás (Saneago), cancelada após a desclassificação do único interessado no certame, que havia apresentado proposta pelo Bloco 2 (Microrregião Oeste).
"O setor de saneamento continua estratégico e o cenário atual pode abrir espaço para novos players nacionais e estrangeiros, à medida que grandes operadores concentram esforços nos contratos já conquistados", ponderou o advogado especialista em direito público e sócio do Toledo Marchetti Advogados, João Paulo Pessoa.
Na visão de Puttini, contudo, o próximo ciclo do saneamento deve ser menos marcado por novos leilões e mais pela capacidade das concessionárias de executar os investimentos prometidos e administrar o elevado nível de endividamento do setor.
"Agora, o mercado vai começar a testar a resiliência desses contratos. Os pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro e a atuação das agências reguladoras diante das novas concessões começarão a ser testados pela primeira vez", afirmou o sócio do Levy & Salomão Advogados.
O mercado monitora ainda o cenário macroeconômico mais desafiador. Conforme mostrou a Broadcast, o risco de reequilíbrio econômico-financeiro de contratos com fornecedores entrou no radar do setor de saneamento após a guerra no Oriente Médio elevar os custos de insumos. O debate, que também envolve tarifas, ganhou força nas últimas semanas diante da forte agenda de investimentos.