Agenda 2026–2027: o teste de mercado do Novo Marco (o que realmente estará em jogo)
Se os artigos anteriores mostraram que o saneamento não cabe em um único rótulo contratual e que os riscos variam conforme a arquitetura, o passo seguinte é olhar para 2026-2027 como um teste de mercado. A pergunta central deixa de ser “quantos projetos serão anunciados” e passa a ser: quais projetos serão efetivamente contratáveis, bancáveis e executáveis. O afã dos primeiros anos de leilões já se passou; agora, o setor deverá ser julgado pela capacidade de transformar metas e desenho normativo em contratos que resistam ao mundo real.
O pipeline de 2026 já ilustra a mudança de régua: há projetos grandes, estruturados e com cronograma na B3; e há projetos que, embora corretos no papel, podem falhar na tentativa de geração de competição no mercado. A experiência recente de Goiás é emblemática: a PPP da Saneago foi lançada como projeto de grande envergadura, abrangendo 216 municípios, mas chegou ao momento crítico com baixa atratividade, terminou com lotes desertos e resultou no cancelamento do certame. O caso ficará como referência: apoio institucional robusto e escala expressiva não são suficientes quando as premissas de modelagem não se sustentam no crivo do mercado.
Um fator transversal de 2026 é o componente eleitoral. Não se trata de prever resultados, mas de reconhecer que um ano com eleições gerais aumenta a volatilidade institucional e o custo de decisão pública: temas como modicidade tarifária, outorgas, garantias, reequilíbrios e prioridades de investimento tendem a ser mais sensíveis politicamente. Esse cenário pode alongar ritos, elevar o escrutínio de órgãos de controle e intensificar disputas administrativas e judiciais. Com eleições marcadas para outubro, a capacidade de cada projeto de atravessar o ciclo eleitoral sem depender de decisões discricionárias de última hora torna-se parte do próprio teste de bancabilidade.
1) PPPs administrativas de esgoto: o modelo dominante será testado onde importa
O padrão que tende a prevalecer em 2026-2027 é o das PPPs administrativas focadas em esgotamento sanitário, com a companhia estadual preservando o sistema de água e a gestão comercial, enquanto o parceiro privado assume o segmento de esgoto sob metas e indicadores de desempenho. É o desenho que promete acelerar CAPEX mantendo a interface pública com o usuário sob gestão da CESB, o que o torna atrativo para governos e recorrente nos anúncios.
O teste real, porém, não é a elegância do arranjo. É a governança que transforma performance em pagamento. Em 2026-2027, a régua do mercado tende a ser: (i) indicadores objetivos e auditáveis; (ii) base de dados confiável (cadastro e hidrometração); (iii) rito de apuração curto e executável, sem glosa crônica; e (iv) garantias que funcionem no ciclo de liquidação. Onde essa engrenagem falha, a PPP “segura” vira risco de caixa e isso se traduz em menor competição e maior prêmio de risco.
Paraíba (Cagepa) é um caso central, por já estar em fase avançada: edital publicado para PPP de esgotamento em 85 municípios, em bloco único, com prazo de 25 anos e julgamento por menor contraprestação. O cronograma foi postergado para maio, o que já sinaliza sensibilidade do projeto à interação com o mercado e à maturação final da modelagem.
Ceará (Cagece) é um teste de escala: a consulta pública do projeto de PPP para universalizar esgotamento em 128 municípios prevê investimentos da ordem de R$ 7 bilhões, com escopo amplo (obras, licenciamento, operação e manutenção), múltiplos blocos e atividades de apoio à gestão comercial. O tamanho confirma a força do modelo, mas eleva o desafio de padronização: quanto maior o território e mais blocos, maior a chance de assimetria informacional e heterogeneidade técnica contaminarem a competição e a execução.
Rio Grande do Norte (Caern) aparece como projeto em estruturação, com sinais de avanço: o PPI indicava progresso da ordem de 70%, investimento estimado de R$ 3,2 bilhões e escopo de serviços de esgoto em 48 municípios. O que o RN testará em 2026-2027 é a capacidade de finalizar um edital pronto para o mercado: base de dados, desenho de performance, garantias e arranjo institucional robusto o suficiente para atravessar ciclos políticos e administrativos.
2) Concessão ampla (integral): Rondônia como teste de diagnóstico e transição
Se as PPPs de esgoto dominam o pipeline, a concessão ampla deverá ser o contraponto; e representa outro tipo de teste. Em Rondônia, o projeto estruturado para concessão de água e esgoto em 45 municípios, com prazo de 35 anos e receita tarifária, está desenhado para avançar em 2026, com edital no segundo trimestre e leilão no terceiro, segundo o BNDES.
Aqui, o centro do risco muda: não é “quem paga a contraprestação”, mas a qualidade do ponto de partida. Os sinais institucionais típicos desse risco já apareceram: o Tribunal de Contas do Estado TCE-RO demandou diligências e complementações em peças técnicas e premissas de viabilidade (anteprojeto, planilhas econômico-financeiras e consistência documental), justamente os itens que determinam se tarifa, CAPEX e fase de transição são críveis. Rondônia tende a ser, portanto, um teste sobre inventário, dados e robustez das premissas: o tipo de risco que se materializa cedo em concessões integrais.
3) Outra via de reorganização: desestatizações e regionalização
Além de PPPs e concessões, 2026-2027 também devem consolidar movimentos de reorganização por via societária e institucional: em Minas Gerais e em São Paulo, por caminhos distintos.
Copasa (MG) é o caso mais relevante. O processo de desestatização avançou e foi aprovado pelo legislativo, com debate sobre a adoção de modelo de corporation e preservação de instrumentos como golden share. Esse caminho difere do bloco licitado: reorganiza incentivos e capitalização sem handover operacional, e pode alterar o apetite ao risco e o custo de capital do setor no biênio.
Em São Paulo, o UniversalizaSP é a fronteira institucional: o programa se apresenta como estratégia do governo estadual para estruturar soluções para municípios fora da cobertura da Sabesp, com foco em modelagens robustas e regionalização, e já é publicamente associado à preparação de leilões em 2026. Aqui, o teste será se o modelo de bloco consegue replicar previsibilidade e competição para além da Sabesp, com governança regulatória consistente e desenho atraente para capital privado.
4) Além dos leilões: concessões em execução e o teste de credibilidade dos novos operadores
O teste do Novo Marco em 2026-2027 não se limita aos novos leilões. Os grandes operadores já contratados passarão também por um teste de credibilidade nas concessões em execução; e isso tende a se refletir no mercado de capitais. Não por acaso, vêm ganhando tração as discussões sobre abertura de capital e uso mais intenso de dívida de longo prazo no setor. A BRK já protocolou pedido de IPO na CVM, e a Aegea tem sido associada publicamente a estudos e preparação para uma potencial oferta pública. Em paralelo, projetos de saneamento já acessaram debêntures com prazos muito longos, chegando a estruturas de quase 30 anos, com vencimentos que alcançam 2052 nos projetos do Rio de Janeiro.
O efeito econômico é direto: para que o setor se financie com equity e dívida longa, o mercado precifica a qualidade da governança contratual (medição, glosas, reequilíbrio, dados e estabilidade institucional). São exatamente os pontos que já aparecem como sensíveis nas controvérsias recentes de reequilíbrio em concessões de grande porte. O que o mercado de capitais começa a sinalizar é que execução e financiamento não são etapas separadas: a qualidade de uma condiciona o custo da outra.
Conclusão: o que 2026-2027 realmente mede
Vista em conjunto, a agenda de 2026-2027 sugere que o saneamento seguirá avançando por mais de um caminho institucional: PPPs administrativas de esgoto, concessões amplas com tarifa, programas estaduais de regionalização e desestatizações societárias. A pluralidade é positiva, amplia o repertório de soluções, mas exige leitura diferenciada: projetos distintos pedem lentes distintas.
Em vez de “quais leilões virão”, a pergunta que o investidor deve formular é: o contrato consegue converter entrega em caixa com baixo atrito institucional? Goiás já respondeu que o mercado está disposto a dizer “não” quando o desenho não fecha. Paraíba testará se uma PPP de esgoto com bloco único e julgamento por menor contraprestação atrai competição sem abrir flanco para disputas de apuração. Ceará testará escala e padronização. Rondônia testará inventário e transição. Minas Gerais e São Paulo testarão reorganização institucional e previsibilidade de regras.
Para o biênio, mais importante do que o volume de anúncios será a qualidade das engenharias contratuais. No saneamento, a diferença entre um leilão promissor e um contrato problemático raramente está no discurso de universalização; está na engrenagem: quem investe, quem mede, quem paga, quem responde e como se corrige o desequilíbrio quando a realidade diverge do edital.
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